CCC-Mitologia Clássica: exercício de reescrita

Existência absurda, se é que existo!

Dir-te-ei toda a verdade: não foi anónima a linhagem que os deuses me concederam, sou descendente do grande Cristovão,  desvendador do mar  cor de vinho, e parente do possante Bolívar, forte e astuto na guerra, que com o seu bronze afiado muitas almas enviou ao Hades, ganhando, como prémio, mulheres  de bela cintura e libertando esta terra tricolor, que hoje volta a estar atada pelas amarras fúnebres da delinquência.

Hodiernamente, luto contra o implacável sol que, pouco a pouco, debilita os meus membros:  A  aprisionante expetativa de vir a ser morto em qualquer instante por qualquer seta; O malfadado receio de algo funesto acontecer aos meus; As decisões dum rei arrogante que riquezas acumula, sendo voraz com os cidadaõs; O destetável cansaço  de lidar e ajudar o povo que tem tudo e não tem nada; A inatingível certeza de melhora; Os corruptos corpos de segurança, que não valem mais do que duas trípodes de meio talento de ouro; A maligna morte escarpada que subjuga, soberba, aos meus companheiros; A ausência de bens essenciais para saciar a corrosiva fome, que rapidamente definha o corpo dos homens.

É este peso que, enfraquecendo as minhas forças, carregos aos ombros. Muitas vezes derrotado pela gravidade, deixo-me cair, dirijo-me a uma tasca, encho-me do doce nectar dionisíaco e oiço cantar o aedo com o som límpido da sua lira. Outras vezes, de peito hirsuto e valoroso, mas com imenso receio de enfrentar a perigosa e rotineira situação diária, tal como o elefante que, forte, robusto e de sólidos passos, caminha pela densa selva com a expetativa de que, em qualquer momento, carnívoros leões, sedentos de sangue, saltem à sua frente com o intuito de o devorar, vou ao templo, verto libações e logo queimo gordas coxas de boi em honra do pai dos Homens e dos deuses. Vã espera de resposta!

Quando a jornada termina e o abrupto esgotamento me atinge, dirijo-me ao meu lar, uma grande encosta com 333 degraus, inquebrantáveis, me separam dele. Começo a ascensão. A cada passo, a gravidade me dificulta o avanço. O peso de responsabilidade faz-se maior e debilita os meus músculos. O sol, o Euro e o loiro pó, trazido pelo Bóreas, embatem no meu corpo e obstaculizam o meu objetivo, todavia os seis lustros de idade me ajudam, a potente mocidade me impulsa, e a vontade de chegar ao meu tálamo e me deitar no meu leito, depois de saber que os meus estão a salvo, pelo menos, mais um dia, me enchem de força e virilidade para continuar a ascensão.

Quando a aurora de róseos dedos desponta, no momento em que o meu desejo de ficar junto dos meus e protegê-los está quase a ser alcançado, os fados e os deuses me subordinam a uma nova descida. O suplício vai recomeçar, e os meus pés, já sabendo a rotineira decadência dos meus passos, descem degraus desgraçados. O peso das responsabilidades aumenta à medida que, descendo, o meu corpo tenta lutar contra a irrepreensível força gravítica que me faz escorregar e, finalmente, tombar no mesmo local, à mesma hora, onde ontem iniciei as minhas façanhas. Longe me encontro, novamente, do tão ansiado cume, onde, eternamente, tentarei chegar e onde , eternamente, esquecidas serão as minhas tentativas, onde reside o tudo que é nada, um lugar que é e, simultaneamente,  não é.

Ó vã ansiedade! Por mim és sentida como ninguém, mas sem ter sentido algum, sorte do constante esforço e do resultado tão desgraçado. É assim que vislumbro as chegadas das retornadas auroras e as sombras dos crepúsculos, os maciços aguaceiros e os clarões repentinos, os tórridos estios e os álgidos invernos, sempre neste desgastante e mortal ciclo que, aos poucos, a vida me evola. Vida! Que não sei se ainda te tenho, se já te perdi ou se, a qualquer inesperado momento, te irei perder.

Autor: José Alberto Gonçalves (aluno de Psicologia, 2013-14)

2 comments

  1. Isto não é uma reescrita. É uma reinvenção! Não é tirar umas ideias e colá-las aqui e acolá. É o processo mental e afectivo de que são feitas Eneidas, Lusíadas e outras obras semelhantes. Não basta estudar, é preciso roubar a matéria e os textos do professor e fazê-los seus… Só então ensinar vale a pena!

    1. Obrigado pelo comentário, Professora Cristina. O meu receio, ao construir o texto, era que o mito ficasse algo explícito, para que qualquer pessoa conseguisse identificá-lo. Acha que isto se verifica?

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