Ainda sobre o filme ‘Um Método Perigoso’

in Público

“Radical” não significa imagens chocantes, pelo contrário. “Um Método Perigoso” é um filme de palavras. Fala-se do que os outros filmes mostravam: o lado mais escuro da natureza humana

David Cronenberg diz que quando está a fazer um filme nunca pensa nos que fez antes. “É como se nunca tivesse feito outro filme. Concentro-me no que estou a fazer e ouço o que esse filme me pede”, afirmou numa conferência de imprensa, ontem, em Cascais.

Cronenberg está em Portugal para participar no Lisbon & Estoril Film Festival, onde ontem estreou o seu mais recente filme, Um Método Perigoso, a história da relação entre Sigmund Freud, Carl Jung e a paciente e amante de Jung, Sabina Spielrein, e onde, também ontem, mostrou as primeiras imagens de Cosmopolis, o próximo filme, uma produção de Paulo Branco, a partir da adaptação de um livro de Don DeLillo.

Um Método Perigoso é sobre o nascimento da psicanálise – um tema que tem tudo a ver com a obra do cineasta canadiano, que tentou sempre entrar nos meandros mais obscuros do espírito humano e captar os impulsos mais primários e violentos. Mas não se espere cenas no limite da repugnância física como acontece em A Mosca (1986), Irmãos Inseparáveis (1988), Crash (1996) ou, de uma forma geral, em toda a obra de Cronenberg.

Este é um filme de palavras. E é por isso que é “radical”, disse o realizador. Tal como Cosmopolis, Um Método Perigoso “é um filme cheio de diálogos, e isso é muito radical hoje e muito difícil de conseguir financiar”, declarou Cronenberg.

Ménage à trois intelectual

Mas o realizador ficou totalmente fascinado pela história de Freud, Jung e Sabrina. “Chamo-lhe uma ménage à trois intelectual – sem dúvida que havia também amor entre Freud e Jung. De certa forma, estas três pessoas inventaram o século XX. As relações que tinham, a forma como falavam uns com os outros, não tem precedentes”.

As três personagens “viviam na Europa Central, no que era então o império austro-húngaro, num ambiente muito controlado, onde toda a gente sabia o seu lugar, não se falava de sexo, ou do corpo e as pessoas pensavam que estavam a evoluir para uma maravilhosa civilização europeia que seria superior a tudo o que tinha existido antes”.

Freud mostrou-lhes que não era assim. “Veio dizer que, por baixo da superfície, e é uma superfície muito fina, há paixões e emoções incríveis, hostilidades tribais, onde o potencial para a barbárie e a violência é enorme. E que temos que ter consciência disso para não sermos controlados por essas emoções”. Para a sociedade da altura, estas eram ideias “perigosas”. Mas, explica Cronenberg, “a I Guerra Mundial provou que Freud estava 100% certo”. De repente, na sociedade que se pensava no mais alto nível civilizacional, “as pessoas começaram a assassinar-se umas às outras”.

Cronenberguiano?

O filme não inventa nada, e “é muito rigoroso”. Todo ele se baseia em cartas e documentos onde Freud e Jung detalhavam “o que comiam, o que sonhavam, as suas vidas sexuais, quantos cigarros Freud fumava”. E esta abertura entre eles, e com Sabrina – que veio dar “a perspectiva feminina, num tempo em que não era suposto que as mulheres tivessem uma educação ou uma vida sexual” – é o que fascina Cronenberg.

“Freud e Jung são dois homens muito sérios, e nas suas cartas estão a falar de coisas como ejaculação, esperma, excrementos, vaginas, abuso sexual de crianças, uma coisa que ninguém imaginava que pudesse acontecer, mas eles que viam nos seus doentes que acontecia.”

Mas por muito chocante que tudo isto pudesse ser na época, Cronenberg não fez um filme para chocar. E no entanto, contou ontem, um crítico disse-lhe recentemente que isso é que era chocante porque o que se espera de Cronenberg é que seja “cronenberguiano”. Ele não está preocupado. “Isso só interessa se pensarmos que faço filmes para chocar as pessoas. Mas não penso nisso de todo.”

O que lhe interessava era falar das origens da psicanálise. E não será por acaso – afinal, como lembrou, o primeiro filme que fez foi em 1966 uma curta-metragem chamada Transfer, que contava a história da relação entre um psicanalista e uma doente.

Uma das coisas interessantes da relação entre Freud e Jung é que os dois tinham visões opostas sobre uma questão essencial. “Jung acreditava que somos capazes de nos transcender a nós próprios. Algumas pessoas pensam que a teoria da evolução, descrita por Darwin, significa que partimos de uma coisa que não é boa e evoluímos sempre para melhor. Evolução significa mudança, sim, mas não necessariamente para melhor”, diz Cronenberg.

Há nos humanos um lado subterrâneo, brutal, primário, assustador. E Freud soube sempre que esse lado estava lá, por muito sofisticados e polidos que fôssemos. Tal como Cronenberg o soube sempre – e o mostrou nos seus filmes. “Estamos presos àquilo que somos”, concluiu.

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