Desaba edifício com dois mil anos (Jornal Público)

Desaba edifício com dois mil anos

Pompeia, “símbolo do desleixo” de Itália, ameaça fazer ruir Governo de Berlusconi

Público 11.11.2010 – 09:23 Por Clara Barata

O desabar no fim-de-semana de um edifício de dois mil anos em Pompeia, a cidade soterrada pelas cinzas do vulcão do monte Vesúvio em 79 d.C., transformou-se num caso político que serve como símbolo do descalabro a que chegou a sociedade italiana. Por causa deste desastre num sítio que é património mundial da UNESCO, o Partido Democrático ameaça uma moção de censura contra o ministro dos Bens Culturais, Sandro Bondi, um dos mais próximos de Berlusconi, que pode vir a dar lugar a outra moção de censura, contra o próprio Governo. A Casa dos Gladiadores – assim chamada por estar decorada com frescos de figuras da Vitória e muitas armas – ruiu no sábado. Era um edifício de oito metros por dez, e seis metros de altura, na Rua da Abundância, a mais frequentada pelos dois a três milhões de turistas que visitam este sítio arqueológico anualmente. Ficou reduzido a escombros. Sandro Bondi, que é um dos três coordenadores do Povo das Liberdades (o partido do primeiro-ministro Silvio Berlusconi), diz que nada fazia prever que o desastre estivesse para breve. Como causa imediata, falou da infiltração de água das fortes chuvadas que caíram naquela zona a sul de Nápoles, que terão dado o golpe final no edifício: devido ao cimento armado com que o telhado foi reparado após a Segunda Guerra, disse o ministro, a água acumulava-se, tornando “inevitável” que a construção cedesse. “Uma vergonha” Há muito que se fala nos problemas de conservação de Pompeia, e ainda em Outubro o jornal Corriere della Sera tinha publicado um grande trabalho denunciando o estado da cidade. “A verdade é que esta área arqueológica, única no mundo, é o símbolo de todo o desleixo e ineficácia de um país que perdeu o bom senso”, escrevia o jornal num editorial que tinha por título A humilhação de Pompeia. Por isso, a queda da Casa dos Gladiadores agudizou o sentimento de crise. A indignação não se compadeceu com as justificações do ministro. O Presidente da República, Giorgio Napolitano, não foi meigo: “Devemos todos sentir o que aconteceu em Pompeia como uma vergonha para Itália.” Mas Sandro Bondi diz que não sente vergonha pelo que tem feito: “Pedir a demissão não seria política nem moralmente justo. Não o mereço, seria um sinal de encarniçamento da luta política”, disse ontem ao ser ouvido numa comissão parlamentar. Entretanto, admitiu que “mais colapsos podem vir a acontecer” e propôs a criação de uma fundação para a gestão de Pompeia, em que o seu ministério trabalharia com peritos de várias áreas para usar melhor o dinheiro ganho com os milhões de visitantes da cidade (o valor da entrada é de 11 euros). “O problema é de gestão, e não de recursos”, reconheceu. O Partido Democrático (PD) não tem deputados para afastar sozinho o ministro. Por isso, o desenlace desta crise estará nas mãos de Gianfranco Fini, o ex-aliado de Berlusconi que entretanto formou o seu próprio partido, Futuro e Liberdade para Itália (FLI). Berlusconi já não tem a maioria na câmara baixa do Parlamento, mas é provável que a FLI não vote contra Bondi, especula a Reuters. No entanto, pode optar pela abstenção, reforçando a sua exigência de eleições antecipadas. Mas o Partido Democrático começou também a pensar numa moção de censura ao próprio Governo. Está já a recolher assinaturas para isso.

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